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Postado em 13 de Novembro às 13h25

Carne de laboratório: ameaça iminente ou alternativa hipotética?

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    Um dos principais alvos de crítica quando se fala em proteína animal é a forma de
    produção. Muitas vezes baseados em inverdades, militantes questionam sobre a engorda, uso de
    medicamentos e formas de abate. Um novo conceito, baseado em produção por células tronco e
    outras alternativas, promete atender aos clamores dessas pessoas: a carne produzida em
    laboratório.
    A ideia surgiu em 1894 quando o químico francês Marcellin Berthelot declarou que os ovos
    e a carne poderiam ser produzidos de maneira completamente diferente dos processos
    tradicionais. A realização só aconteceu em 2013 quando o professor Mark Post, da Universidade
    de Maastricht, na Holanda, trabalhou com multiplicação de células animais, que aglomeradas se
    transformaram em fibras, produzindo o primeiro hambúrguer em laboratório.
    Segundo relatos, o hambúrguer é vermelho intenso e depois de submetido ao processo de
    cocção tem a aparência de um produto caseiro. Saindo da sala cheia de substâncias, pipetas e
    recipientes, e caminhando rumo ao mundo dentro da porteira: seria esta uma ameaça à produção
    tradicional? A resposta é não, e a explicação vem a seguir.
    Em primeiro lugar, para se ter uma ideia, a Hampton Creek, startup do Vale do Silício, que
    está em negociação para licenciar sua tecnologia de carne cultivada em laboratório, quer trabalhar
    junto a algumas das maiores empresas de carne do mundo. “É improvável que a maioria dos
    consumidores escolha constantemente alternativas como estas para frango, carne bovina, suíno e
    frutos do mar. Queremos trabalhar com algumas das maiores empresas no Brasil, em toda a
    América Latina, Ásia, Europa Ocidental e em outros lugares, para encontrar uma solução para
    essas realidades econômicas e culturais e também trazer a eficiência da produção industrializada
    às carnes cultivadas em laboratório”, justifica o CEO da companhia sediada em São Francisco
    (EUA), Josh Tetrick.
    A relação econômica seria a seguinte: a Hampton Creek ofereceria licenças comerciais de
    produtos aos processadores de carne por um período pré-acordado, em troca de royalties e
    pagamentos antecipados quando determinados marcos fossem atingidos. A principal justificativa
    dessa e de outras empresas que estão apostando neste nicho (são mais de cinco) é a já
    conhecida demanda alimentar em 2050, que prevê 10 bilhões de pessoas em todo o globo.
    “Com plantas que fornecem nutrientes para células de animais para crescer, acreditamos
    que podemos produzir carne e frutos do mar que são mais de dez vezes superiores em eficiência
    do que o abatedouro de maior volume do mundo. Nossa abordagem será transparente e
    inquestionavelmente segura, livre de antibióticos e tem um risco muito menor de doença
    transmitida por alimentos. Tudo isso sem confinar ou abater um único animal e com uma fração
    das emissões de gases de efeito estufa e uso de água”, pontua Josh Tetrick.
    Faz apenas alguns meses que a Hampton Creek anunciou sua entrada no mercado de
    carne cultivada em laboratório, em junho, embora já estivesse trabalhado em soluções de carne
    há mais de um ano. A empresa entende que “não poderá alcançar o sucesso sem a ajuda da
    indústria da carne”.
    O diretor de Agricultura Celular da Hampton Creek, Eitan Fischer, destaca que o primeiro
    produto comercial, que provavelmente será de carne de frango, deverá ser lançado no final de
    2018. “O setor de serviços alimentícios é uma via mais provável que o varejo, mas ainda não
    chegamos a uma decisão definitiva sobre isso”, fala.
    No entanto, um dos principais entraves para a carne de laboratório ainda é o preço. Mesmo
    acreditando no consumo em massa lá no futuro, os custos de fabricação continuam a ser um
    obstáculo significativo, de modo que a empresa prevê que o primeiro produto deva chegar ao
    mercado custando cerca de 30% mais que a carne convencional. “Levará uma quantidade
    considerável de tempo, mas acreditamos que seja possível e os preços competitivos são a única maneira desse modelo funcionar para consumidores em todo o mundo. Nossa visão é que esteja
    disponível em restaurantes, dos estabelecimentos com estrelas Michelin aos restaurantes de
    fastfood”, complementa Tetrick.
    Na boca do vendedor todo produto é ótimo. Por isso, a feed&food procurou o Instituto de
    Tecnologia de Alimentos (ITAL) da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São
    Paulo (SAA, São Paulo/SP) para entender, com os pés no chão, qual o impacto da carne de
    laboratório na produção animal tradicional e no consumo global. “Ainda não dá para saber se a
    carne produzida em laboratório trará ou não benefícios para a saúde. Como toda novidade é
    preciso observar os seus efeitos ao longo do tempo, talvez por algumas gerações”, reforça o
    pesquisador José Ricardo Gonçalves.
    Do ponto de vista de fabricação, ele complementa, o hambúrguer é uma carne moída
    adicionada de alguns ingredientes e condimentos que mantém as suas partes aglutinadas. Além
    da textura, o profissional afirma ser importante que se desenvolva o sabor e a suculência
    relacionados com a gordura, dentre outros atributos de qualidade. “Isso poderá levar mais algum
    tempo”, diz.
    Supondo que a continuidade da pesquisa produza resultados amplamente favoráveis,
    algumas mudanças na cadeia produtiva de proteína animal poderiam ocorrer (nem todas
    previsíveis, Gonçalves lembra). “Talvez o questionamento mais imediato fosse justificar a
    existência dos abatedouros, uma vez que seriam substituídos pelos laboratórios. Mas, havendo
    produção de carne a indústria de processamento e seus fornecedores continuariam preservados,
    desde que houvesse mercado para os seus produtos”, prevê.
    De imediato, o pesquisador do ITAL acredita que a ideia parece agradar mais os
    defensores dos animais, pela mudança de tratamento, e os do meio ambiente, que visualizam uma
    oportunidade para reduzir os gases de efeito estufa e o consumo de água na produção de carne.
    “O uso efetivo desta carne, tal qual conhecemos, me parece algo distante, uma vez que textura,
    suculência, aroma e aparência, atributos essenciais para a aceitação, requerem que na
    composição da carne, a gordura e o tecido conjuntivo estejam nas proporções e localização
    análogas à da carne proveniente dos animais, assim como as proteínas aquossolúveis que
    incluem a mioglobina, também apresente as mesmas características estruturais que são presentes
    nas carnes”, confirma e finaliza: “Os desafios são muitos para se imitar a mãe natureza!".

    Fonte: Natália Ponse / Feed&Food

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